A questão da advocacia e o trabalho em escritórios corporativos é um assunto de certa recorrência nos canais de conteúdo da ADVBOX.

O impacto da Transformação Digital na Advocacia

Trabalho em escritórios corporativos é um tema que gera polêmica a nível nacional dentro do universo jurídico, inclusive em conselhos da OAB. Mas hoje trataremos esse assunto mais “de perto”.

Fizemos uma entrevista com a Advogada Ana Amorin, que já viveu a realidade do trabalho em escritórios corporativos e tem muito a compartilhar sobre.

Com tecnologias como inteligência artificial, o trabalho em escritórios corporativos dos advogados tem sido bastante transformado e substituído por softwares e bots, reduzindo o nível dos empregos nestes escritórios.

Nesta entrevista vamos ver um pouco da realidade que está sendo vivida pelos advogados que estão migrando destes escritórios corporativos para empreender em escritórios digitais próprios.

 

Como era o trabalho jurídico antes da inteligência artificial no escritório corporativo?

Sem a inteligência artificial para auxiliar e dinamizar os processos (jurídicos e administrativos), a organização se dava com muita planilha no excel e procedimentos “complexos”. Complexos pois estes envolviam protocolos a serem seguidos, muitos papéis, arquivos físicos, pessoas envolvidas e planilhas.

Era um trabalho em que a alimentação dos sistemas, planilhas e documentos eram realizadas de forma manual.

Por exemplo, era necessário que uma pessoa lesse as notas e vinculasse elas aos respectivos processos e repassasse, por intermédio de planilha, para o advogado responsável.

Depois, o advogado iria averiguar o que era necessário no processo, em caso de diligência, por exemplo, encaminhava pra outra pessoa responsável por solicitar as diligências.

No escritório que eu atuava, que representava grandes bancos e empresas no Brasil todo, implementaram software próprio, de acordo com as suas necessidades.

O tempo que estive lá houveram algumas contratações mais sofisticadas de robôs – para leitura de intimação e criação do prazo, por exemplo.

Por último, eles estavam testando robôs que identificavam as teses arguidas no processo e criavam as peças, com teses pré-fixadas, automaticamente.

A instrumentalização do advogado, neste caso, seria zero, quase nula. A ideia deles era de que pudessem agilizar os processos, diminuir custos e reduzir a perda de prazos.

Você tinha autonomia para pesquisar a matéria e elaborar sua argumentação?

Eles diziam que sim, mas na prática as teses eram fornecidas – na maioria das vezes – pelos próprios clientes, por intermédio de seus departamentos jurídicos.

A pesquisa, de forma geral, não é estimulada nesses escritórios, eis que estão preocupados em não perder prazos e receber a remuneração pelos atos praticados (geralmente o cliente repassa quantia fixa mensal, mais valor por ato ou processo ativo).

A autonomia do advogado, então, é extremamente prejudicada pois o advogado é o meio de produção em massa de petições que precisam ser entregues no prazo, caso contrário o escritório paga multa para o cliente.

Imagina que você tenha que baixar média de 60 -100 prazos por dia. Não é viabilizado, de forma alguma, que o advogado exerça seu intelectualidade quando realiza o trabalho em escritórios corporativos.

Você se sentia feliz e realizada naquele emprego?

Não, na realidade era um sentimento de inutilidade.

O cenário corporativista acaba por proporcionar isso, uma vez que transforma o judiciário em uma indústria sistematizada, como se para cada ato houvesse uma possibilidade de resposta pronta, cria essa cadeia cíclica que acaba por nos engessar.

Certa vez eu questionei o gestor o motivo pelo qual ele não contratava estagiários para fazer o que fazíamos (uma vez que protocolávamos na OAB do presidente do escritório), ele respondeu dizendo que infelizmente os clientes previam nos respectivos editais que a força de trabalho deveria partir de advogados.

Além disso, eles tinham um sistema de compliance com pontuação para bonificações, que as métricas dependiam do rendimento (número de prazos protocolados no dia) do advogado e da sua equipe.

Isso era extremamente revoltante e retrógrado.

Qual a realidade do seu antigo escritório hoje?

O escritório continua atuando em todo o país, com grandes empresas, multinacionais e bancos.

Atualmente dividiram as regiões por linhas de produção, os advogados estão desenvolvendo atividade mais administrativas, como por exemplo uma que consiste em alimentar o sistema com as atualizações dos Tribunais para o sistema do escritório, que envia para o sistema do cliente.

Essas atualizações são em grande parte feitas por robôs, mas os advogados precisam revisar o trabalho do robô.

Como você está desenvolvendo a sua advocacia atualmente?

Atualmente venho me preparando para uma advocacia mais humana e especializada no atendimento do caso concreto, respeitando as peculiaridades do caso, acrescentando inclusive a graduação em Psicologia ao meu currículo.

Impossível desenvolver isso, dar essa atenção especial e se aprimorar, sem delegar alguns procedimentos de gestão, a parte que recorro a utilização de softwares.

Porém, o software serve como auxiliar, e não como meio de exercer o trabalho principal do escritório.

 


Eduardo Koetz

CEO da ADVBOX . Advogado e Professor de Pós Graduação. Especialista em Gestão Digital de Escritórios de Advocacia, equipes não presenciais, marketing jurídico digital e estratégia.

0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *