A pontuação por tarefas é um método de metrificação do trabalho intelectual, que visa obter uma referência de produtividade similar entre os membros de equipes que trabalham com conhecimento e informação.

Duas grandezas são relevantes para esta metrificação:

  • Tempo de duração da execução da tarefa
  • Complexidade da tarefa, de acordo com o nível de dificuldade.

O tempo é facilmente verificável, porém a complexidade do trabalho intelectual é por demais subjetiva.

Entretanto, os especialistas em pedagogia e psicologia tratam do tema com profundidade, e já estipularam classificações validadas pela ciência acerca do nível de esforço para tais tarefas:

Os níveis de esforço para os tipos de atividade intelectual

 

Segundo os especialistas cada nível acima exige um esforço mental maior, consumindo inclusive mais energia corporal, da mesma forma que uma atividade física.

São elas:

1º Nível – Atividades que exigem apenas a: Lembrança.

Recordar, listar, resumir, reproduzir, manifestar, utilizar, cadastrar, registrar, anotar, escrever, responder, informar.

2º Nível – Atividades que exigem a: Compreensão.

Compreender, explicar, estimar, exemplificar, deduzir, interpretar, entender, alinhar.

3º Nível – Atividades que exigem além de lembrar e compreender: a Aplicação

Aplicar, demonstrar (falar e mostrar ao mesmo tempo), operar máquina ou sistema, ensinar a executar (explicar tarefa e ver outra pessoa desenvolver corrigindo erros), Solucionar problemas comuns, descobrir soluções de problemas simples, fazer entender, produzir um relatório, produzir um trabalho pré-definido, adaptar uma única solução a um caso concreto.

  4º Nível – Atividades que exigem Analisar e Avaliar opções ou soluções.

Resumir, comparar, argumentar, convencer, desenhar uma explicação, identificar procedimentos estabelecidos e propor adaptações, diferenciar uma situação errada de um procedimento correto, analisar duas opções e propor uma como solução fundamentando, explicar métodos diferentes e suas vantagens e desvantagens, fazer uma análise swot, fazer um planejamento de gestão de stakeholders, convencer o gestor ou usuário a aderir a um micro-sistema, analisar uma migração grande e planejar sua execução.

5º Nível – Atividades que exigem: Criar ou Sintetizar o conhecimento para descobrir uma solução.

Vender, analisar personas e elaborar uma estratégia de conteúdo, elaborar táticas completas de marketing (campanhas, eventos, etc), elaborar conteúdo novo e complexo, sintetizar idéias em aplicação prática.

Estes níveis são para conhecimentos já adquiridos, ou seja, que já estão acomodados no sistema mental de cada pessoa.

O esforço intelectual para obter novos aprendizados, no processo de assimilação, é certamente muito maior do que praticamente todos estes níveis.

 

A questão da complexidade do trabalho intelectual.

A principal dificuldade encontrada para se construir a pontuação por tarefas em escritórios de advocacia vem sendo estipular requisitos para mensurar o nível de complexidade.

Para encontrar estes requisitos na ciência, mergulhamos no estudo da pedagogia e da psicologia, a fim de entender como se esquematizam as atividades intelectuais e o que representa maior complexidade para os indivíduos.

Piaget divide a organização mental do conhecimento em duas fases relevantes para humanos de qualquer idade:

  • Assimilação 
  • Acomodação

As duas funcionam como “ferramentas do conhecimento”.

 

A Assimilação serve para o humano adquirir nova informação.

Basicamente, ao ter o primeiro contato com um objeto, informação, conhecimento ou sistema, a assimilação é ativada. Piaget dá o exemplo do bebê, que ao ver uma mesa vai assimilar que se trata de algo igual ao seu berço apenas pela forma.

Algo parecido ocorre com usuários de software que entram em contato com um novo software pela primeira vez, pois assimilam que se trata de um software mas apenas pela forma, sem identificar imediatamente para o que serve e como usá-lo.

A diferença é que o adulto possui vários esquemas, informações e sistemas na sua consciência que o ajudam a compreender melhor as circunstâncias, mas o processo de assimilação é o mesmo.

 

A Acomodação serve para o humano diferenciar informações semelhantes, criando sistemas mentais e organizando seu conhecimento.

No exemplo de Piaget, é preciso que outro humano que tenha conhecimento sobre a diferença entre o berço e a mesa intervenha, mostrando ao bebê suas diferenças de utilidade, aprimoramento e comparação.

No exemplo do software a acomodação é semelhante, mas o adulto pode buscar a informação sozinho por ter um repertório de sistemas que o habilita a isso.

Porém, nem sempre isso irá acontecer, pois isso gera desconforto nos sistemas de acomodação já estabelecidos. É a chamada zona de conforto.

 

Taxonomia de Bloom

Taxonomia é uma metodologia de classificação e Bloom foi um psicólogo que estudou os níveis de dificuldade das atividades intelectuais. 

Partindo do pensamento de Piaget, Bloom categorizou seis grupos de atividades em níveis crescente. 

Os níveis de esforço para os tipos de trabalho intelectual

1º Nível: Lembrança (clique se preferir assistir o video)

2º Nível: Compreensão (clique se preferir assistir o video)

3º Nível: Aplicação (clique se preferir assistir o video)

4º Nível: Analisar e Avaliar (clique se preferir assistir o video)

5º Nível: Criar ou Sintetizar (clique se preferir assistir o video)

1º nível: Lembrança – Atividades que exigem apenas a lembrança de fatos já memorizados no passado, não exigindo nenhuma pesquisa, busca de informação nova ou esforço de raciocínio.

É como quando a pessoa preenche um cadastro com seus dados pessoais próprios por exemplo, no qual sabe de cor todas as informações. Ou ainda, quando em uma conversa está falando sobre um assunto que domina completamente a muito tempo.

Enfim, é quando a atividade intelectual se restringe a famosa DECOREBA.

Quando apenas lembramos conceitos, sem sequer necessariamente  compreendê-los, é a forma mais pobre de aprendizagem que nos tornam meros ‘papagaios’ que repetem conceitos, práticas ou ideias sem ter o entendimento pleno sobre os mesmos.

 

2º Nível: Compreensão – Atividades que exigem a compreensão da matéria intelectual utilizada, pois faz com que a pessoa explique e descreva os conceitos.

É preciso compreender para explicar com suas próprias palavras, discutir e demonstrar os problemas e soluções para os quais aquele conteúdo ou sistema pode ser útil.

 

3º Nível: Aplicação – Atividades que permitam conseguir encontrar utilidade prática e fazer o conhecimento adquirido se tornar útil para a vida.

Utilizar um sistema teórico em uma situação prática e real, sem que alguém anteriormente “monte um esquema pronto”, ou que já exista um passo a passo é o que conta nesse nível.

Trata-se de pegar um conhecimento teórico, genérico e universal de um lado e pegar uma situação fática, real de alguma pessoa, grupo e organização e organizar uma solução para esta situação.

Pode ser também a aplicação de um princípio do Direito por exemplo a uma situação em um caso concreto.

Como por exemplo no “ Princípio do Melhor interesse da criança” do Direito de Família aplicado em um caso onde a mãe firmou em cartório um contrato com o pai, seu amante, que ele reconheceria a paternidade do filho, mas que ela ficaria impedida de pedir pensão alimentícia.

A aplicação da tese no caso concreto invalida o contrato no caso concreto, e esta é uma tarefa que exige um maior esforço intelectual do operador do que simplesmente compreender a teoria.

Na aplicação do sistema de pontuação por tarefas, que é um sistema que visa a recompensa por aumento da produtividade e se orienta por resultados, ensinar o taskscore para um escritório com essa cultura, seria uma tarefa de nível 2, pois só exigiria entender e explicar o conceito.

Entretanto, aplicar o taskscore em um escritório com uma outra cultura, como o Tradicional legalista e hierárquico, adaptar o discurso para algo adequado a cultura do escritório no caso concreto é uma tarefa de Aplicação.

 

4º Nível: Analisar e Avaliar – Tarefas de Análise estão em um nível de complexidade maior, pois exigem da pessoa a necessidade de levantamento de dados, observação da realidade, realização de comparações com sistemas e métodos que possui em sua organização mental.

Exige portanto a habilidade de comparar opções, relacionar fatos, informações e conhecimento, medir, interpretar a realidade e a teoria comparada, explicar opções, prever possibilidades e escolher entre opções.

Neste nível também se encontra a capacidade de convencer, de demonstrar a outra pessoa a melhor alternativa de forma a conseguir na maior parte das vezes que a outra pessoa tenha adesão a sua argumentação. É a capacidade de negociar ou vender.

 

5º Nível: Criar ou Sintetizar – Criar novas soluções, elaborar treinamentos, petições, esquemas, modelos ou desenhar procedimentos ou novos conteúdos a partir do conhecimento adquirido sem dúvidas são as tarefas que exigem maior esforço mental.

Assim, no nível de complexidade, as tarefas ligadas a produção ou criação são as tarefas de maior complexidade e merecem maior pontuação de tarefas.

O Conhecimento como Meio de Produção

 

Apesar de ficar demonstrado os níveis de esforço intelectual para desempenho de cada atividade, tal classificação não basta para medir o esforço intelectual.

Isto porque a realização de tarefas de alta complexidade muitas vezes compreendem um esforço anterior, um “trabalho intelectual pretérito” que confere ao autor deste trabalho intelectual a capacidade de realizar determinada tarefa.

Por exemplo, um estudante de engenharia fará um esforço tremendo, muito maior do que um engenheiro experiente para realizar um cálculo diferencial de alta complexidade que nunca tinha visto antes.

De fato, para o engenheiro é uma tarefa muito simples de analisar, avaliar e executar.

Dessa forma, o trabalho intelectual do engenheiro para ele seria de complexidade inferior do que para o estudante pois estaria nos níveis de recordar, compreender e aplicar, enquanto para o estudante seria necessário passar por todos os níveis de aprendizagem.

Entretanto, o que importa na valoração da complexidade da tarefa não é a visão do executor da tarefa em si, mas a verificação do grau de qualificação para aquela determinada tarefa e o esforço que terá que ser investido.

O esforço social médio incluindo dificuldade no presente e esforço pretérito para realização da tarefa, eis o critério de pontuação por complexidade.

Por este motivo, há que se valorar também todas as qualificações de um profissional ao definir a gratificação final e a faixa salarial, sendo a pontuação por tarefas o elemento de quantificação mensal do trabalho, e não o elemento qualitativo.


Eduardo Koetz

Especialista em Gestão de Escritórios de Advocacia e CEO da ADVBOX

0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *