Usucapião Especial rural - foto de propriedades na zona rural
Direito

Usucapião rural: o caminho para a regularização fundiária

A usucapião rural é um instituto jurídico que permite a aquisição de propriedade de terras rurais por meio da posse prolongada e pacífica. 

Essa ferramenta legal desempenha um papel crucial na regularização fundiária, garantindo o acesso à terra para aqueles que a ocupam e trabalham, mas que não possuem documentação formal. 

Assim, neste texto, exploraremos os aspectos essenciais da usucapião rural, sua importância para a segurança jurídica e desenvolvimento rural, bem como os procedimentos necessários para sua aplicação.

O que caracteriza usucapião rural?

A usucapião rural é uma modalidade de usucapião prevista no Código Civil brasileiro, em seu art. 1.239.

Dessa forma, ele estabelece que a posse mansa e pacífica, com justo título e boa-fé, por um período mínimo de 5 anos, pode conferir ao possuidor o direito de propriedade sobre a área rural.

Art. 1.239, CC Aquele que, não sendo proprietário de imóvel rural ou urbano, possua como sua, por cinco anos ininterruptos, sem oposição, área de terra em zona rural não superior a cinqüenta hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho ou de sua família, tendo nela sua moradia, adquirir-lhe-á a propriedade.

1. Posse mansa e pacífica

  • A posse deve ocorrer de forma tranquila e ininterrupta, sem que alguém a oponha;
  • Qualquer tipo de contestação ou conflito pode prejudicar a caracterização da posse pacífica.

2. Justo título

  • Refere-se à origem legítima da posse, como compra e venda, doação, herança, entre outros;
  • É fundamental para comprovar a boa-fé do possuidor e sua intenção de adquirir a propriedade de forma regular.

3. Boa-fé

  • O possuidor deve acreditar que está adquirindo a propriedade de forma lícita, assim, sem conhecimento de vícios ou irregularidades que possam comprometer seu direito.

4. Prazo de posse da usucapião rural

  • O período mínimo para a configuração da usucapião rural é de 5 anos, contínuos e ininterruptos;
  • Durante esse tempo, o possuidor deve exercer todas as prerrogativas de um proprietário, como o pagamento de impostos e a realização de melhorias na terra.

5. Segurança jurídica

  • A regularização fundiária por meio da usucapião proporciona segurança jurídica aos possuidores, conferindo-lhes, assim, o direito formal de propriedade;
  • Isso permite o acesso a crédito, programas de financiamento agrícola e outros benefícios que contribuem para o desenvolvimento das atividades rurais.

6. Desenvolvimento rural

  • Ao garantir a titularidade da terra aos pequenos agricultores e posseiros, a usucapião rural estimula o desenvolvimento das comunidades rurais;
  • Os proprietários têm maior incentivo para investir na terra, implementar técnicas agrícolas sustentáveis e contribuir para a produção de alimentos e a geração de renda.

7. Redução dos conflitos fundiários

  • A regularização fundiária promovida pela usucapião ajuda a reduzir os conflitos por terra, que historicamente têm sido uma fonte de tensão no campo;
  • Ao estabelecer direitos de propriedade claros e legalmente reconhecidos, a usucapião contribui para a paz social e a estabilidade nas áreas rurais.

Quais são os tipos de imóveis considerados rurais?

No Brasil, o Código Civil define como imóvel rural aquele que se destina à exploração agrícola, pecuária, extrativa vegetal, agroindustrial ou agroflorestal.

Dessa forma, abaixo estão alguns exemplos de tipos de imóveis rurais:

  • Fazendas: grandes áreas de terra utilizadas para atividades agrícolas, pecuárias ou mistas, como criação de gado, cultivo de grãos, frutas e vegetais;
  • Sítios e chácaras: áreas menores destinadas à agricultura familiar, produção de alimentos, criação de animais de pequeno porte e lazer;
  • Fazendas de exploração mineral: áreas destinadas à extração de recursos minerais, como minério de ferro, ouro, diamantes, entre outros;
  • Reservas extrativistas: áreas protegidas utilizadas pela população tradicional para a coleta sustentável de recursos naturais, como frutos, castanhas, borracha, entre outros;
  • Áreas de preservação ambiental: terrenos destinados à conservação da biodiversidade, proteção de ecossistemas frágeis e manutenção dos recursos naturais.

Como funciona o usucapião de um terreno rural?

  • Levantamento documental: deve-se reunir toda a documentação relacionada à posse da terra, incluindo contratos de compra e venda, recibos de pagamento de impostos, registros de cadastro rural, entre outros;
  • Laudo técnico: é fundamental apresentar um laudo técnico que comprove a área ocupada, suas características e eventuais benfeitorias realizadas pelo possuidor. O laudo pode ser elaborado por um agrimensor ou engenheiro agrônomo, e deve ser acompanhado de plantas, mapas e fotografias que evidenciem a ocupação da terra;
  • Ajuizamento da ação de usucapião: com base na documentação e no laudo técnico, o possuidor deve ingressar com uma ação judicial de usucapião rural perante o juízo competente. Assim, é necessário apresentar uma petição inicial detalhando os fatos e fundamentos jurídicos do pedido, bem como todas as provas documentais e testemunhais que corroboram a posse pacífica e prolongada;
  • Citação dos proprietários regulares: após o protocolo da ação, os proprietários registrais da área objeto da usucapião devem ser citados para apresentar eventual contestação ou impugnação ao pedido;
  • Audiência de instrução e julgamento: em seguida, o juízo designará uma audiência de instrução e julgamento para ouvir as partes e produzir as provas necessárias para o esclarecimento dos fatos. Assim, nessa fase, podem apresentar testemunhas, documentos complementares e outros elementos de prova que fortaleçam o direito do possuidor;
  • Sentença Judicial: após a instrução do processo, o juiz proferirá uma sentença que julgará procedente ou improcedente o pedido de usucapião. Assim, se reconhecido o direito do possuidor, será emitida uma sentença declaratória que confere a propriedade da terra ao requerente;
  • Registro da sentença: por fim, a sentença judicial deve ser registrada no Cartório de Registro de Imóveis competente, para que a propriedade seja formalmente transferida ao usucapiente. Esse registro é essencial para conferir publicidade ao direito adquirido e garantir sua oponibilidade a terceiros.

Quais as principais diferenças entre usucapião rural e urbana?

  1. Localização: 
  • Usucapião Rural: refere-se à aquisição de propriedade de áreas rurais, geralmente destinadas à atividade agrícola, pecuária, extrativista ou preservação ambiental;
  • Usucapião Urbana: aplica-se a áreas urbanas, como terrenos em zonas residenciais, comerciais ou industriais.
  1. Finalidade e características: 
  • Usucapião Rural: destina-se a regularizar a posse de terras rurais ocupadas por pequenos agricultores, posseiros, agricultura familiar e comunidades tradicionais. Geralmente envolve atividades agrícolas, pecuárias e extrativistas;
  • Usucapião Urbana: visa regularizar a posse de imóveis urbanos, como casas, apartamentos, lotes e estabelecimentos comerciais, mais comum em áreas urbanizadas e povoadas.
  1. Requisitos e prazos: 
  • Usucapião Rural: o prazo mínimo de posse para requerer é de 5 anos, conforme estabelecido pelo Código Civil brasileiro. Além disso, é necessário comprovar a posse mansa, pacífica, contínua e com justo título;
  • Usucapião Urbana: o prazo mínimo de posse varia de acordo com a legislação de cada país ou estado, mas geralmente é mais longo que a usucapião rural. Também é necessário comprovar a posse pacífica, contínua, sem oposição, e de boa-fé.
  1. Procedimentos e documentação: 
  • Usucapião Rural: o processo pode exigir a apresentação de laudo técnico que comprove a ocupação da terra, bem como, assim, a documentação que ateste a posse mansa, pacífica e com justo título;
  • Usucapião Urbana: o processo pode envolver a apresentação de documentos como comprovantes de pagamento de impostos, contas de serviços públicos, registros de moradia, entre outros, para comprovar a posse e a ocupação do imóvel.
  1. Impacto socioeconômico: 
  • Usucapião Rural: contribui para a regularização fundiária e o desenvolvimento rural, assim, promovendo a segurança jurídica dos pequenos agricultores, posseiros e comunidades tradicionais;
  • Usucapião Urbana: ajuda a reduzir o déficit habitacional, promove a inclusão social e, dessa forma, estimula o desenvolvimento urbano, especialmente em áreas de ocupação irregular e favelas.

Em suma

A usucapião rural representa um instrumento valioso para a regularização fundiária e o desenvolvimento sustentável do meio rural. Assim, ao conferir segurança jurídica aos ocupantes de terras, ele promove a justiça social, estimula o investimento produtivo e contribui para a redução dos conflitos fundiários. 

Além disso, ao proporcionar o acesso à propriedade da terra, a usucapião rural fortalece a agricultura familiar, a preservação ambiental e a inclusão social no campo.

No entanto, é importante ressaltar que o processo de usucapião rural pode ser complexo e exigir assistência jurídica especializada. Portanto, é fundamental que os possuidores de terras rurais busquem orientação adequada para garantir o sucesso de seus pleitos.

Assim, em suma, a usucapião rural não apenas reconhece o direito à terra daqueles que a ocupam e trabalham, mas também representa um passo significativo rumo à construção de uma sociedade mais justa e equitativa, onde o acesso à terra seja um direito assegurado a todos os cidadãos

Por fim, sabemos que se organizar com qualidade é primordial para os advogados. É aí que entra a ADVBOX, um software jurídico que oferece soluções para a gestão de escritórios de advocacia e para a automação de tarefas.

Em síntese, com a ADVBOX, você pode organizar informações do caso de forma clara e objetiva, evitando perder documentos ou deixar passar informações importantes. Basta acessar nosso blog e conferir todos os detalhes que preparamos.

Mais conhecimento para você!

Por aqui estamos sempre abordando assuntos quentes e relevantes para os profissionais do Direito. Confira outros textos que também podem te interessar:

Alta produtividade na advocacia
Como criar o setor comercial do seu escritório de advocacia? Confira 7 dicas!
Software Jurídico: 17 critérios fundamentais para encontrar o melhor!
O que é a Controladoria Jurídica e como funciona
Escritórios com filiais, correspondentes e parceiros fixos
Advocacia baseada em dados
automatização de petições
Autor
Foto - Eduardo Koetz
Eduardo Koetz

Eduardo Koetz é advogado, escritor, sócio e fundador da Koetz Advocacia e CEO da empresa de software jurídico Advbox.

Possui bacharel em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Possui tanto registros na Ordem dos Advogados do Brasil - OAB (OAB/SC 42.934, OAB/RS 73.409, OAB/PR 72.951, OAB/SP 435.266, OAB/MG 204.531, OAB/MG 204.531), como na Ordem dos Advogados de Portugal - OA ( OA/Portugal 69.512L).
É pós-graduado em Direito do Trabalho pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2011- 2012) e em Direito Tributário pela Escola Superior da Magistratura Federal ESMAFE (2013 - 2014).

Atua como um dos principais gestores da Koetz Advocacia realizando a supervisão e liderança em todos os setores do escritório. Em 2021, Eduardo publicou o livro intitulado: Otimizado - O escritório como empresa escalável pela editora Viseu.

Postagens Relacionadas